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Escada Inexplicável

Em 1878, na cidade de Santa Fé (EUA), um carpinteiro não identificado realizou uma obra impossível: construiu uma escada de madeira em caracol, com duas voltas completas de 360º, sem usar um único prego. O milagre, atribuído à São José por todos os que visitam a Escola de Nossa Senhora da Luz (Loreto) até hoje, serviu de inspiração para Regina Silveira intitular sua Escada Inexplicável (1999), obra que remonta para a ocasião de 30 × Bienal.


"Justamente neste trabalho que fiz um pulo do analógico para o digital. Eu usava geometria da perspectiva de uma escada para fazer a distorção e não estava dando certo, então se criou um modelo 3D cuja sombra resultou nessa obra. E houve um momento em que não entendi mais nada! Havia trinta e tantos pontos de fuga… achei que podia chamar isso de inexplicável!" - conta, relembrando a configuração da série, que ainda ainda tem outras "irmãs" e uma versão digital animada, feita de luz, como se fosse um cartoon.

Regina participou, ao todo, de quatro Bienais de São Paulo: 4ª (1957), 16ª (1981), 17ª (1983) e 24ª (1998). Destas, lembra-se especialmente da fachada que realizou para a edição de Paulo Herkenhoff, Tropel (1998), um grande desenho aplicado em vynil, remetendo ao tema da Antropofagia, de modo que toda aquela selvageria escapasse por uma fresta do edifício para o ambiente do parque.


"Além dessa, a Bienal de 1983 também foi uma que marcou muito minha produção. Fiz uma pintura no chão e nas paredes, das sombras dos ready-mades do Marcel Duchamp: In Absentia MD, era seu nome. Passei meses aqui dentro deste Pavilhão pintando praticamente sozinha, lembro até de ter fechado todos os buraquinhos do chão com massa plástica, fiquei com os joelhos arrebentados (risos) já fiquei presa no banheiro também, tem muitas histórias aí..."


Em 30 × Bienal, Escada Inexplicável vai representar um pouco da produção de uma das artistas mais ecléticas que já passaram pelas Bienais de São Paulo. Mas a visitante Regina Silveira, que acompanhou de perto a história dessas exposições, pode dizer mais sobre suas impressões enquanto observa o grupo de assistentes que aplica seus desenhos sobre dois planos:

"Cada Bienal teve seu aspecto interessante, sabe? As do Zanini foram fundamentais como movimento de ruptura, a Bienal estava em ruínas e ele levantou. Marcaram as da Sheila [Leirner], a ironia da Grande Tela, ver a pintura ressucitada... Gostei das da Lisette [Lagnado], e as do Paulo [Herkenhoff]... maravilhosas! Ele sabia tão bem o que queria mostrar que, certa vez, fez uma visita comigo ao Pavilhão todo vazio e me explicava parede por parede! E adorei essa última Bienal, do Oramas, um respeito incrível pela arte e pelas produções... falei isso para ele." - lembra, pensativa, e logo me deixa para subir sua escada. Regina diz que, depois de certa idade, a gente fala tudo.

|imagens: ©Leo Eloy e ©Arquivo Regina Silveira|João Musa